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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

PRODUÇÕES COGUMELO

À excepção das postagens de promoção dos filmes que o clube de cinema apresenta, o "blogue" do Gostos Discutem-se tem estado ao abandono.
Eu próprio, que durante algum tempo continuei a resistir, ingloriamente, espicaçando, desafiando, convidando potenciais autores de "posts", os quais, depois de variadas promessas de colaboração, acabavam por me deixar pendurado, decidi ir desligando botões. [O do interesse, o da motivação, o do prazer da escrita no blogue].

Mas se há uma razão para tornar a entrar neste palco, essa razão é a sessão do dia 12/12/12, toda praticamente a cargo das Produções Cogumelo.
Em primeiro lugar, uma palavra acerca das Produções Cogumelo, de que o Gostos Discutem-se é, sem dúvida, e a vários títulos, promotor e padrinho.
Parece-me extraordinário - e meço bem a palavra - que, num tempo de crise [porque as sociedades em crise geram "tempos de crise"], que, pois, num tempo de crise económica e cultural, de valores ou de entusiasmos, o clube de cinema tenha sido o espaço de surgimento de um grupo de jovens cinéfilos dispostos a passar da contemplação à acção: fizeram "curtas"; ganharam prémios; investiram os prémios; e - este é o princípio do projecto - todos cooperam em todos os aspectos da realização das ideias de cada um deles. O realizador de um filme é actor em outro, ou o camera-man num terceiro, ou o responsável do som de um quarto filme. De algum modo, como afirmava o André Vieira, todos fazem tudo, ou um pouco de tudo, num movimento de solidadriedade e entreajuda que tem permitido multiplicar obras, aperfeiçoá-las técnica e artisticamente, e, porventura, principiar a difundi-las - para já em Portugal, mas quem sabe o que o futuro lhes reserva?

As curtas a que assistimos têm já um elemento de profissionalismo que não podemos deixar de mencionar. Escolhem os lugares adequados para as filmagens, preparam-nas com uma grande seriedade, trabalham até altas horas, com persistência e amor.
Amor e humor. A trilogia cómica é uma sucessão hilariante (e desconcertante) em que se leva até às últimas consequências uma ideia aparentemente muito simples: a maravilha está na "orquestração" da ideia, no rigor das representações, no inesperado das ligações.

Se o filme de terror não oferece propriamente novidades em relação aos filmes que os inspiram, é no entanto um tarabalho cuidadoso e um terreno de ensaio promissor. Alguns momentos são autênticos achados - e, numa síntese, a ilustração de como com poucos meios se pode fazer muito, e se pode ir fazendo cada vez melhor.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Mais Wim Wenders


"Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas
que escapam a quem sonha só de noite"
Edgar Poe

Não.
Desta vez não há polémica.
Embora, por vezes, ela seja necessária.
Sinto-me até algo triste que os nossos "cinéfilos" (cujos nomes estão aqui ao lado colocados como "estátuas") participem tão pouco nestes debates. Podiam pelo menos fazer alguns comentários...

No entanto, como o Peter Falk afirmava no filme "As Asas do Desejo", eles (os nossos cinéfilos - e outros "anjos") observam-nos e isso é visível naquele contador de presenças do Blogue que nos últimos dias tem andado numa roda viva... e já estamos perto das 10.000 visualizações!

Apesar das divergências (e ainda bem que elas existem) relativamente a "Paris, Texas", o Clube de Cinema não se vai desmoronar e a minha amizade com o José mantém-se. Foi ela que nos permitiu sonhar com este projecto "Gostos Discutem-se" que teve,  relembre-se, na primeira sessão, a presença de 6 pessoas: 3 alunos e 3 professores.

Ontem, na apresentação do filme "As Asas do Desejo", estiveram a assistir 14 pessoas. Um pouco menos que a média deste ano que ronda as 20 presenças. Testes intermédios, trabalhos para entregar, preparação das curtas-metragens para o Festival do dia 30, talvez sejam bons argumentos para as ausências...

Mas não sabem o que perderam!

Embora o filme não seja daqueles "cheios de acção" e de leitura fácil, os 14 resistentes mantiveram-se e a maioria permaneceu no final para o debate. E que debate... Quase todos foram dando a sua opinião, ouviu-se muito (que é tambem uma forma de participar) e ficámos todos com a sensação de que valeu a pena.

Por isso, para aqueles que não puderam ir, aqui vos deixo dois textos que ajudam a comprender o filme.
O primeiro escrito pela apresentadora - a Prof. Teresa Gomes.
O segundo é de Pedro Moreira, escrito em 2007, na Revista E-topia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

 


Der Himmel über Berlin – Sob o céu de Berlim

Há acontecimentos que modificam a nossa vida e este filme foi um deles. Não de repente, mas ao longo do tempo que o fui degustando. Ganhou mais uma peculiaridade quando seguido do “Paris, Texas” do mesmo realizador. Wim Wenders, o contador de espaços.

O filme é passado em Berlim Ocidental (RFA) em 1987. A cidade está dividida pelo muro construído em 1961, pulsante cicatriz queloide que interrompeu lugares, caminhos, histórias, famílias. Expressão maior de como o poder político condiciona a vida e a felicidade humana. O filme é sobre esta cidade dilacerada. Mas não só. É a existência humana vista por alguém exterior a ela - os anjos. O “desejo” nasce da cobiça dos anjos que não têm acesso aos sentidos humanos, origem do prazer. É que a vida permanece.

Todos os sentimentos, pensamentos, gestos, feitos por vezes de forma automática e inconsciente, expressam essa vida: o café da manhã, o abraço dos amigos, o calor do sol na pele nos dias frios, a primeira chuva, um cigarro ao fim do dia, estudar, passear de mão dada; mesmo a inquietação, a desilusão e o amor são preciosos.

Foi esse olhar de criança, nascido dos sentidos, inquieto e deslumbrado, que eu recebi do filme.
Als das Kind Kind war…


Teresa Gomes

As Asas Do Desejo: Porque é preciso sonhar

Pensar sobre a Utopia é, em grande medida, pensar sobre a origem do desejo humano. Se queremos que o mundo seja verdadeiramente melhor, temos primeiro que perceber o que nos leva a esse impulso. Será inato ao ser humano o desejo de ir mais além, de sonhar e imaginar, de projectar um amanhã diferente do dia de hoje?

António Damásio, no seu magnífico Erro de Descartes, coloca o desejo como inato ao ser humano, demonstrando cabalmente a forma como determinadas zonas do nosso cérebro controlam a capacidade de pensarmos no amanhã, nas nossas aspirações e projectos para lá do limiar do imediato, do hoje.

 (…)Podemos assumir duas posições no que toca à origem do desejo: acreditar que é parte da nossa condição ou então considerar que a necessidade ou as circunstâncias sociais, económicas e políticas o despertam. Estes pontos podem ser ilustrados recorrendo a um filme de Wim Wenders, As Asas do Desejo. Não pretendo oferecer uma sinopse detalhada, na esperança de que os aspectos focados estimulem o visionamento do mesmo.

O filme, datado de 1987, tem como cenário a cidade de Berlim do final dos anos 80. O guião, inspirado na poesia de Rilke e escrito em colaboração com Peter Handke, acompanha o dia-a-dia da Berlim do final da década, de uma humanidade desiludida que vagueia cinzenta pelas cicatrizes do Pós-guerra. Esta situação é-nos relatada do ponto de vista de dois anjos – Cassiel e Damien – visíveis apenas por crianças e incapazes de qualquer contacto físico com o mundo humano. A sua visão é, significativamente, a preto e branco. Em contraponto, recorre ao longo do filme a narração em voz-off de um poema de Handke, Song Of Childhood. Esta canção da infância recorda o que depressa esquecemos, esse ponto comum a todo o ser humano, por mais diferente que a sua experiência de vida seja: a criança é o sonhador perfeito.

 A criança é capaz dessa proeza de olhar um riacho como um rio, um rio como uma torrente e uma poça como um oceano. Encara o futuro como um território de possibilidade total, a sua construção do mundo não encontra terrenos demarcados pelas barragens da negação. Acima de tudo, é capaz de encarar o futuro em cada momento e de o moldar e construir de acordo com as suas expectativas e sonhos. Creio que recordar as proezas da nossa infância não constitui um exercício inútil de nostalgia mas, cada vez mais, uma proeza maior.

Esta capacidade primeira de sonhar, de encarar o futuro com optimismo, é o fruir primeiro do impulso utópico. “Imagination is more important than knowledge”, assim é citado Einstein por Federico Mayor em Attempting The Impossible. Não é a utopia o reflexo máximo da vontade humana de ir mais além? O conhecimento só pode conceber a chave para um futuro melhor quando alado pela imaginação, quando carregado pelas asas desse desejo. Na ausência dele, torna-se uma prisão, estagna o Homem na realidade cinzenta da Berlim de Wenders.

É particularmente comovente a imagem de um idoso que procura a Potsdamer Platz de tempos idos, recordando-a num cenário de ruína, ao lado do Muro. Este olhar para o passado nas ruínas do presente serve de metáfora para expressar a perda da oportunidade de reclamar o paraíso quando o homem perde a capacidade de sonhar e olhar para um futuro melhor.

Ao retratar o Homem nos dois extremos da sua existência – Infância e Velhice – o filme traça o arco dessa perda. O mundo da infância, presente através da recorrência do poema, denuncia a insuficiência e alienação do mundo adulto na sobreposição da narração às imagens. Desta forma, é identificado com o mundo dos Anjos, na medida em que ambos têm capacidade de sonhar: a Criança com o Futuro e os Anjos com a existência material.

Ao metaforizar a Infância num poema, sem concretizar através de uma personagem esta reflexão, Wenders iguala-a à neutralidade observadora dos Anjos. Assim, ambos olham o Homem com esperança e espanto. Recorrentemente, os dois anjos partilham os pensamentos que recolheram na sua observação, maravilhados com a beleza de momentos que passam totalmente despercebidos aos seus donos. A admiração que passa por eles é cândida e, de certa forma, infantil aos olhos do espectador.

Uma Humanidade sem sonho vive destituída e empobrecida: não há beleza ou felicidade. Vive desligada do pulsar que a anima, alienada do melhor que é capaz de produzir, sem conceder sentido à sua existência. Os Anjos, por sua vez, estão em contacto com a maravilha da poesia, da invocação da cor, do sabor, do sentimento. Não é ausente neles a resposta a essa invocação: surge o sonho, o desejo de as experimentar na sua plenitude.

Quando um dos anjos decide abdicar da sua condição, abraçando a mortalidade, fá-lo por crença na capacidade humana de sonhar. O mundo ganha então cor a seus olhos, ganha significado e esperança porque só na condição de morto é que faz sentido olhar-se com esperança para o futuro, mesmo que inatingível: “Sei agora o que nenhum anjo sabe”, diz o anjo caído no final do filme.

O desejo é então o que confere sentido à existência humana no filme de Wenders. Se a um mundo de fronteiras, de limitações sociais, políticas e económicas, respondemos com o mundo das fronteiras auto-impostas e da alienação, não somos mais do que uma versão a preto e branco da humanidade.

A resposta dada em Asas do Desejo à questão da origem do desejo passa pela afirmação de que, mais do que inato, este constitui o sentido mais nobre da existência humana. Diria que, ao sublinhar essa faceta, Wenders defende a necessidade de manter intacta a vontade de transcender os limites que todos conhecemos enquanto crianças. Nenhum Homem se esqueceu de como sonhar, mas a maioria dos Homens perdeu a crença na força e importância de o fazer.

Vivemos um momento historicamente tenso, não sem semelhança ao clima político que deu origem à obra de Wim Wenders aqui discutida: os choques culturais, as palavras “Guerra Nuclear” a insinuarem-se todos os dias na informação que nos chega através dos media. Obras como as Asas do Desejo tornam-se então vitais porque, ao devolverem respostas positivas ao Sonho e Desejo, devolvem esperança na possibilidade de um amanhã realmente melhor e ao alcance do Homem. Ou como diz o poema de Handke: “When the child was a child (…) it had, on every mountaintop, the longing for a greater mountain yet, and in every city, the longing for an even greater city, and that still is so (...)”.

Pedro Moreira
Revista E-topia - 2007
Faculdade de Letras da Universidade do Porto

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Paris, Texas: Ligações em Contra-Mão


Ligações para uma ideia de Geo-Narrativa Simbólica da América

O papel do cinema enquanto elemento de aquisição do real pelos Americanos e a construção de noções de território, família e genealogia. A íntima relação entre etnografia, geografia cinematográfica e as geo-narrativas das famílias americanas: O caso "Paris, Texas" de Win Wenders


Olá a todos! 

Não posso deixar de começar por agradecer o convite do Francisco para a participação no visionamento e debate da sessão dedicada ao filme Paris, Texas, de Win Wenders, na semana passada. Foi um verdadeiro prazer poder contribuir para um debate que se revelou, durante e após a sessão, vívido e saudavelmente "acalorado".

Apesar do atraso, aqui ficam como prometido as ligações de significado aleatório, conspirativo e altamente suspeito, mas, na minha opinião, absolutamente relevante que as minhas "escavações" apriori da sessão puderam revelar.

Cumprimentos a todos e bons vôos Wenderianos!


3.30 da manhã


será um galo
ou uma mulher gritando na distância

será o céu negro da noite profunda
ou o quase azul-escuro dentro da madrugada

será um quarto de motel
ou a casa de alguém

será o meu corpo vivo
ou morto

será o Texas
ou Berlim-Oeste

afinal
que horas são

a que pensamentos
posso chamar meus aliados

e se suspendesse
todo o pensamento

uma pausa honesta
num espaço vazio

deixem-me navegar a estrada
de cabeça vazia

só uma vez

não estou a suplicar

não estou a pôr-me de joelhos

não estou em condições de dar luta.

9/12/80
Fredericksburg, Texas

Crónicas Americanas, Sam Shepard




Um meta-filme de géneros Americanos ou um Road Movie com um Home Movie dentro 
- Cancion Mixteca, a canção mais étnica do filme na cena do Super 8 e numa versão especial... - 



- You know what? - (um)a cena road movie por excelência


 



A paisagem sonora de Ry Cooder
- Instrumental completo do tema principal -

 


Curiosamente não muito longe dali... alguns anos depois
The Straight Story - David Lynch


 

 



Outras curiosidades encontradas ao longo da mesma estrada...

InterviewProject.com David Lynch


1000 Stories - Eiffel Tower - Paris, Texas /Florian Thalhofer 2007




domingo, 13 de maio de 2012

Ainda a propósito de Paris, Texas

“o que acho é que "aquela história" tem um peso que não é independente do espaço, mas, em grande medida, condicionado por aquele espaço, aquela vastidão (horizontal e vertical)”

Isto foi aquilo que o meu amigo e parceiro do Clube de Cinema, José Pacheco, escreveu num comentário ao post anterior.

Além disso suponho também ter ouvido no debate que “aquela é tipicamente uma história americana” e como tal não concordando comigo que afirmei “ser uma história universal”.

Mantenho o que disse e por isso vou colocar 3 excertos do filme (talvez os mais belos) que ilustram o meu argumento:






"I knew these people. These two people. They were in love with each other. The girl was very young, about 17 or 18, I guess. And the guy was quite a bit older. He was kind of raggedy and wild. And she was very beautiful, you know. And together they turned everything into a kind of adventure. And she liked that. Just an ordinary trip down to the grocery store was full of adventure. They were always laughing at stupid things. He liked to make her laugh, and they didn't much care for anything else because all they wanted to do was be with each other. They were always together...Yes, they were, they were real happy. And he, he loved her more than he ever felt possible. He couldn't stand being away from her during the day when he went to work. So he'd quit, just to be home with her. Then he'd get another job when the money ran out, and then he'd quit again. But pretty soon, she started to worry. Money, I guess. Not having enough. Not knowing when the next check was coming in. So he started to get kind of torn inside. Well, he knew he had to work to support her, but he couldn't stand being away from her either. And the more he was away from her, the crazier he got, except now, he got really crazy. He started imagining all kinds of things. He started thinking that she was seeing other men on the sly. He'd come home from work and accuse her of spending the day with somebody else. He'd yell at her and break things in the trailer. Yes, they lived in a trailer home... Anyway, he started to drink real bad, and he'd stay out late to test her, to see if she'd get jealous. He wanted her to get jealous, but she didn't. She just worried about him but that got him even madder...because he thought if she never got jealous about him, that she didn't really care about him. Jealousy was a sign of her love for him. And then one night, one night, she told him that she was pregnant. She was about three or four months pregnant. And he didn't even know, and then suddenly everything changed. He stopped drinking and got a steady job. He was convinced that she loved him now, because she was carrying his child. And he was going to dedicate himself to making a home for her. But a funny thing started to happen...He didn't even notice it at first. She started to change. From the day the baby was born, she began to get irritated with everything around her. She got mad at everything. Even the baby seemed to be an injustice to her. He kept trying to make everything all right for her. Buy her things. Take her out to dinner once a week. But nothing seemed to satisfy her. For two years, he struggled to pull them back together like they were when they first met, but finally he knew that it was never gonna work out. So he hit the bottle again. But this time it got mean. This time, when he came home late at night, she wasn't worried about him, or jealous, she was just enraged. She accused him of holding her captive by making her have a baby. She told him that she dreamed about escaping. That was all she dreamed about: escape. She saw herself at night running naked down a highway, running across fields, running down riverbeds, always running. And always, just when she was about to get away, he'd be there. He would stop her somehow. He would just appear and stop her. And when she told him these dreams, he believed them. He knew she had to be stopped or she'd leave him forever. So he tied a cow bell to her ankle so he could hear her at night if she tried to get out of bed. But she learned how to muffle the bell by stuffing a sock into it, and inching her way out of the bed and into the night. He caught her one night when the sock fell out and he heard her trying to run to the highway. He caught her and dragged her back to the trailer, and tied her to the stove with his belt. He just left her there and went back to bed and lay there listening to her scream. Then he listened to his son scream, and he was surprised at himself because he didn't feel anything anymore. All he wanted to do was sleep. And for the first time, he wished he were far away. Lost in a deep, vast country where nobody knew him. Somewhere without language, or streets. And he dreamed about this place without knowing its name. And when he woke up, he was on fire. There were blue flames burning the sheets of his bed. He ran through the flames toward the only two people he loved, but they were gone. His arms were burning, and he threw himself outside and rolled on the wet ground. Then he ran. He never looked back at the fire. He just ran. He ran until the sun came up and he couldn't run any further. And when the sun went down, he ran again. For five days he ran like this until every sign of man had disappeared."






terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Thomas Newman

No seguimento do comentário que fiz ao texto do André Vieira do post anterior apeteceu-me partilhar algumas Bandas Sonoras deste excelente músico chamado Thomas Newman.

















quinta-feira, 6 de maio de 2010

A Vida Faz-se Bela

A propósito da sessão de ontem do filme "A Vida é Bela" proposto pela Catarina Pereira, não resisto a mostrar um vídeo que encontrei no you tube (por ali encontra-se quase tudo) que me foi sugerido pela crítica do Jorge Leitão Ramos que coloquei no folheto e que passo a transcrever:

"Começou em Cannes, com aquele prémio que Benigni recebeu ajoelhando-se aos pés do presidente do júri, Martin Scorsese - criando o "gag" e o acontecimento da noite. A sério, a sério, a coisa não era para menos: o "clown" via o seu mais recente filme reconhecido por um areópago que não costuma laurear divertimentos ocos."



"Depois, a avalanche continuou, quer em prémios vários em diversíssimos festivais, quer num sucesso de bilheteira que extravasou a Itália e se estendeu a vários países, incluindo os Estados Unidos.
A Vida É Bela chega esta semana a Portugal - e, sustente-se já, seria lamentável que o público não acorresse a vê-lo.
Não sou entusiasta nem do actor nem do realizador Roberto Benigni. Até agora, salvo em momentos esparsos, a sua comicidade sempre me pareceu sustentada em mecanismos de facilidade, dos quais o histrionismo desmesurado do actor, a sua electrizante energia física, surgiam sem controlo, como se tivessem um valor em si.
Que tinham realmente valor - de mercado - prova-o o estrondoso êxito dessas fitas, principalmente em Itália, onde ele é um incontestado campeão de bilheteira, os seus trabalhos sendo dos muitíssimo raros que, se batem de igual para igual com as locomotivas americanas. Só que a capacidade de entreter o povo nunca foi critério de avaliação crítica.
Todavia, em A Vida É Bela, Benigni evolui apreciavelmente. Sem perder as suas características populares, mantendo-se criatura articulada, «boneco» desenfreado, Benigni envolve-se num manto de poesia. Guido, assim se chama o personagem da fita, não é um pateta desastrado e sempre-em-pé. É um personagem que começa com a aparência e a substância do eterno «boneco» de Benigni, depois vai ganhando espessura, sentimentos fortes, uma inteligência que sobreleva a esperteza infantil, uma capacidade de combate que não é simples teimosia. E, depois, o «clown» não faz rir apenas porque se despenha ao comprido na rua, porque leva pontapés ou porque sustenta um fluxo verbal insensato em situações de apuro.


O «clown» é um mágico. É alguém que conquista a mulher amada chamando-lhe «princesa» e fazendo-a sentir-se como tal. Ele move as estrelas se preciso for para que o seu amor seja feliz. Ele introduz na rudeza do quotidiano o imponderável, polvilha a vida com o doce prazer do ilusionista que é capaz de criar o inesperado e sempre inventar gentilezas - mesmo se o tempo de domínio fascista na Itália não é o mais acolhedor dos ambientes.
Quando A Vida É Bela entra naquele que para toda a gente é o lugar central do filme (um campo de extermínio nazi), que o protagonista, para proteger o filho, tente prolongar a magia, na mais impensável das situações, faz com que a respiração do filme sofra um forte abanão.
O que até aí era pura fantasia romântica povoa-se de uma carga de patético, cada vez menos ridente, cada vez mais intolerável. O humor entra em processo de ocaso e avulta a força dos sentimentos, de maneira que a comédia se transmuta em melodrama, num crescendo que emudece o riso e floresce em lágrimas e alegria no final. O mais notável do filme é isso, é a capacidade de ir mudando de registo, mantendo uma coerência de fábula e, sobretudo, uma moral vincada desde a abertura: que a vida é bela se a povoarmos de fantasia, que a vida permanece e floresce mesmo para lá do horror e da morte.
Um pouco por toda a parte, entre os muitíssimos aplausos, ouviram-se vozes fortes, dissonantes, escandalizadas com a mistura de riso e Holocausto. Na «Time», Richard Schickel chamou mesmo ao filme «uma fábula fascista», porque trivializaria o horror. É de esperar que quem olhe para A Vida É Bela de um ponto de vista secamente histórico possa partilhar tais opiniões.
Estará, todavia, quanto a mim, a passar ao lado do que é essencial na fita: a afirmação da superioridade da resistência da vida mesmo perante os fornos crematórios. É por isso que este filme é tão comovente como ver uma ervinha a ganhar corpo nas encostas das estéreis cinzas de um vulcão.

Jorge Leitão Ramos
Jornal Expresso, 23 Janeiro de 1999

quinta-feira, 4 de março de 2010

ERIC ROHMER E PEDRO MEXIA NO CLUBE

Convidado a escolher e a propor um filme, Pedro Mexia decidiu-se por um Rohmer (e que a propósito!). "Um Conto de Verão".

Emprestou-me o DVD para que o visse primeiro, se quisesse, a sós, em casa.
Vi-o. Sozinho. À noite. E devo confessar que foi uma experiência confusa, entre o prazer que me suscitavam a beleza e a tensão do filme, das personagens, dos sentimentos, ou a ligeireza dos "jogos de sedução" (como Mexia se lhes referiu depois), e o receio de que os jovens - mesmo os do clube de cinema, com duas ou três excepções - pudessem não estar preparados para um objecto tão raro, tão exigente, tão ao arrepio dos hábitos cinematográficos de hoje.

Mais tarde, durante a exibição, confesso, o mesmo receio pateta me acompanhou durante todo o tempo. Pois não fora a Catarina a dizer-me: «Um filme francês? Detesto filmes franceses!»? Pois não fora o Afonso a dizer-me: «Francês? Ah, então não vou!»? (E não veio, o puto!). Que iam sentir, que iam pensar, que iam compreender daquilo, que iam desprezar daquilo?

Como imaginam, quando a luz foi ligada e, após as brilhantes considerações de Pedro Mexia, se iniciou a conversa, foi com a mais agradável das surpresas que dei conta das reacções dos jovens. Por causa do gosto, que mostraram, por um tempo e um ritmo cinematográficos tão singulares, por causa do seu fascínio pela perturbação daquele jovem em face do amor e da amizade, em face da rejeição e da superabundância, por causa da sua sensibilidade à beleza daqueles diálogos tão prolixos, tão densos, tão "irrealistas", no sentido - como Mexia insistiu - em «que, de facto, os jovens não falam assim».

E o próprio Mexia foi um sedutor: pela sua voz, tudo surgiu como redes de ligações possíveis e imprevisíveis, onde cabiam o teatro, a literatura, a filosofia, o cinema, a História, Portugal, França, o mundo, sem esforço nem artifício, fluindo graciosamente. Pela sua voz passou o seu imenso amor pelo cinema e, sobretudo, por Eric Rohmer.

Indo a seguir para casa, por estradas carregadas de trânsito e água, num carro muito amolgado e com as luzes de farol perigosamente fundidas, não conseguia sair daquele momento - meia hora antes, no anfiteatro, com Rohmer, Mexia, e muita gente, entra a qual jovens cultos, inteligentes, interessados, interessantes.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Fico feliz que o meu título tenha feito escola…

No dia 29 de Outubro eu tinha escolhido para título do meu “post”:
“Ontem, vivi um dia aparentemente normal…”

No entanto, existem algumas diferenças relativamente ao seu conteúdo por comparação ao post anterior do João d’Eça.


Por exemplo, eu acordei às 7h00 e terminei o meu relato à meia-noite. Também não joguei PS3… (espero que não encontrem aqui conotações políticas).

Existem outras diferenças e inverdades (estou a ser simpático…), mas essas tenciono esclarecê-las no lugar indicado para resolver este tipo de questões:

na NOSSA Reunião do CLUBE DE CINEMA da próxima
4.ª feira
dia 27 DE JANEIRO DE 2010, às 14h30.


Por isso, aproveito para lembrar que estão convocados os “membros regulares” e os outros “membros não regulares” (irregulares?) para discutirmos estes assuntos.

Partindo duma premissa que faz parte da minha forma de estar na vida:

NÃO EXCLUIR NINGUÉM (leia-se “expulsar”).

Assim estão convocadas as seguintes pessoas (por ordem de entrada no Clube de Cinema e que assistiram a pelo menos 2 sessões desde o dia 26 de Novembro de 2009 com o filme: “O Bom Rebelde” - em que estiveram presentes 2 professores e 3 alunos)

João Sacramento
André Vieira
André Jorge
Mónica Pinheiro
Vasco Pedro
Beatriz Pinto
Eliana Oliveira
Ruben Viveiros
Guilherme Santos
João de Almeida d'Eça
Afonso Azevedo Coelho
Filipe Valadas
Maria Nunes
Inês Lourenço
Catarina Pereira
Mariana Amor
Diogo Nogueira
Sara Pestana
Gustavo Barradas
Andrii Korolivskyi
João Mendes
Isabela Nóbrega

Além dos professores José Pacheco e Madalena Fernandes, como é óbvio.
Se me escapou alguém, peço antecipadamente desculpa, e considere-se convocado.
Quem quiser aparecer pela 1.ª vez também será bem-vindo.


Já agora aproveito para informar que tencionava responder no próprio dia ao “post” anterior, mas deixei de ter Net em casa e assim até foi melhor porque me permitiu ter tido com o Eça uma boa conversa de desabafo (cara a cara).
Para finalizar gostava de voltar a referir uma parte do texto que já coloquei no meu “post”:
“Ontem, vivi um dia aparentemente normal…”

“Após o filme: a conversa. Afinal este é o momento mais importante do CC. Percebeu-se que a maioria já tinha visto o filme e que numa segunda visão (ou 3.ª) identificou aspectos que lhe tinham passado despercebidos. Eu retenho uma cena do filme que me tocou especialmente: aquela em que os pinguins machos (alojando cada um os seus ovos) decidem encostar-se uns aos outros em perfeita SOLIDARIEDADE para assim poderem resistir melhor ao frio. Mesmo aqueles que entretanto terão perdido irremediavelmente o seu ovo. E lembrei-me de agradecer aos alunos que já tendo visto o filme decidiram aparecer na sessão e permitir assim dar continuidade ao lema do NOSSO CLUBE – “Gostos Discutem-se”.

Cumprimentos a todos,
Francisco José Rodrigues dos Santos Morais
(isto assim tudo completo dá um sentido mais nobre… não acham?)
e um olá do Ricardo
(o meu filhote mais novo de 2 anos)
que é o único que está agora aqui ao pé de mim.

sábado, 19 de dezembro de 2009

APOCALYPSE NOW 30 ANOS DEPOIS

A discussão é sempre essencial. Mesmo quando se torna amarga ou triste - e diria, até, mesmo quando nos soa como uma conversa de surdos: em última análise, parecendo que cada uma das pessoas não se ouviu senão a si mesma, é bem possível que as palavras do outro tenham penetrado por uma porta subterrânea e permaneçam em nós, fazendo o seu lento e secreto trabalho, mudando ideias que estavam aparentemente consolidadas, mudando-nos.

Não imaginam as vezes que, no Clube de Cinema - ou nos projectos associados ao clube, como por exemplo este blogue -, as discussões me levaram a repensar o que tinha por assente. E, muitas vezes, a alterar o ponto de vista. Ainda bem.

Assim, de caras, recordo alguns exemplos: 1) quando referi Yul Brynner ou Leonardo DiCaprio como exemplos acabados de actores-canastrões, e me fizeram lembrar que, em The king and I, o primeiro tinha sido extraordinário e, em Revolutionary Road, o segundo representava, com invulgar brilho, um jovem marido-e-pai de uma família suburbana com demasiadas aspirações e expectativas da vida; 2) ou quando JC nos convidou a ver o 2001: Odisseia no espaço, obrigando-me (atacado de todos os lados simultaneamente), a tentar compreender e explicar por que razão gostara tanto daquele filme! Continuo a gostar muito de 2001, talvez goste agora ainda mais, mas certamente não me foi indiferente que a maioria do clube me tenha forçado a este exercício de perceber e fundamentar, perante mim próprio e perante os outros, tal gosto, digamos para simplificar, "elitista" e difícil.

Com Apocalypse Now, aconteceu uma experiência similar.
Trata-se de um filme que me interessou muito em 1979 ou 80. Mas, para mim, não ultrapassou, então, uma história de guerra, como outras, embora com grande força.
Apresentado, agora, no anfiteatro, por Ana Páscoa; revisto com uma outra maturidade e uma outra atenção; discutido, a seguir, com os presentes, Apocalypse Now foi um filme completamente novo que, de certa forma, eu nunca vira. Compreender, por exemplo, quem é Kurtz, o que o move a partir do mais fundo da sua personalidade estilhaçada, que nunca nos é inteiramente oferecida, ficando sempre dependente das interpretações que queiramos fazer ou das lógicas que lhe queiramos impor - logo a ele, cuja lógica própria tem tão pouco que ver com as "lógicas" que nós frequentamos -, ou por que razão aquela violência em estado quimicamente puro nos hipnotiza, ou que fantasmas e medos nossos acordamos em face deste filme, levam-me a sentir que, no cinema, para mim, nada está ou estará concluído ou esgotado. Nem sequer os filmes que já vi, e julgava ter definitivamente catalogado. Tudo se metamorfoseia e refaz. Tudo é outra coisa, porque me apontam um pormenor que me escapara, porque me propõem uma interpretação que eu não fizera, porque me levantam dúvidas, porque me levantam ligações, porque me levantam discordâncias.

O Clube tem-me, literalmente, educado para o cinema.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

ACERCA DE A TURMA


Enquanto alunos há que já viram cinco, seis, sete vezes o filme A Turma, no circuito comercial, na televisão e na escola, eu só o conhecia de mo recomendarem insistentemente.
Vi-o ontem convosco e, no meu caso, pois, pela primeira vez.

Concordo com as palavras da Maria, a proponente, quando, na apresentação, lhe chamava um filme «sensível e poderoso».
Sensível, é claro, porque a sua matéria, muito mais do que a escola hoje, é o grupo, «a turma»: mostrando as diferenças entre os seus elementos, por um lado e, por outro, entre estes e tudo o que os rodeia, culturalmente mas não só; e mostrando o modo como os problemas de cada um se manifestam, e são compreendidos ou não, integrados ou não mas, de uma forma ou de outra, acabam por se tornar parte do rosto colectivo.

Não sei se fui totalmente entendido quando, no debate, afirmava que, apesar do seu poder - de nos comover e fazer pensar, quanto mais não fosse - este filme é parcial. Disse mais. Disse que era um filme «manipulador», e hoje não o diria. A verdade é que se entrechocam ali diversas consciências (a dos alunos, a dos encarregados de educação, a do director, a de quem ensina), mas, verdadeiramente, só numa dessas consciências o espectador consegue entrar: a do professor; entrar, e de que maneira. Sentimos que navegamos no seu interior, compreendemos as hesitações, os dilemas, os remorsos que permanentemente o assaltam.

Ou seja, aquela realidade é a realidade segundo o professor - um professor, como se lembrava, que não tem soluções no bolso, e se encontra num permanente frente-a-frente consigo mesmo -; aquela realidade é, mais do que a «realidade» pura e simples, uma «interpretação» desta, feita a partir da experiência docente, interrogando-se continuamente sobre os seus limites e falhas, sobre a sua impotência e complexidade. Parece-me indesmentível que um aluno ou um pai teriam realizado aquele filme de outra maneira.

As ligações - para continuar a ideia que, no texto anterior, o Francisco usava como título - permanecem. Estão por todo o lado. São ligações entre diferentes filmes que vimos, porque, como lembrava o Eça, os realizadores são influenciados por outros realizadores; entre sensibilidades e experiências diferentes. As de cada uma das personagens - os alunos de raças e culturas diferentes, os profes, que nem sempre concordam uns com os outros, os encarregados de educação, com os seus preconceitos mas, também eles, vítimas dos preconceitos dos outros, e as suas expectativas ou críticas ao sistema, e as dos próprios espectadores que nós fomos, oscilando entre visões aparentemente incompatíveis, mas tentando mutuamente compreender-se. A culpa é do sistema? A culpa é de imigrantes que se não adaptam e tornam focos de problemas? A culpa é dos políticos? Há, ao menos, «culpa», ou o termo dá mal conta desta gestão complexa de diferenças e incompreensões mútuas?

Tal como aquele professor - e outros com que nos temos confrontado, em filmes que já vimos - também eu confesso que nem sempre estou muito certo da minha razão, das minhas decisões, das minhas estratégias. Nem sempre sei o que é ser um bom professor.

Não tenho uma chave, e o filme não fornece chaves. (Tal como Elephant: outra ligação). O fim, aliás, parece querer esquecer o inesquecível: houve um aluno que o sistema não conseguiu converter, que o professor não conseguiu interessar, que não se permitiu que se corrigisse, ou adaptasse, ou evoluísse. É dessas falhas que uma escola, qualquer escola se faz.

Admirável. Tudo: o filme, as ligações, a discussão. A falta de chaves - e uma procura constante e colectiva de chaves que, provisoriamente, possam ir abrindo algumas portas...

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

ELEPHANT E OS CEGOS

Acabo de entrar em casa, as mãos mal conseguindo abraçar a pasta, a filha ainda adoentada, o filho amparando-se, também doente, ao meu ombro, um saco plástico com a comida que sobrou do almoço deles.
Pormenores hiper-realistas à parte, o que interessa contar é que vou ter de a aconchegar na cama, porque adormeceu, e de o ajudar a ele a pôr-se confortável, mas sem esconder que estou ansioso por me sentar ao computador: apetece-me, e imediatamente, porque ainda trago tudo muito vivo no espírito, principiar a escrever um texto - este texto - acerca da sessão de cinema de onde venho.

Gostei de conhecer Carlos Vaz Marques, o convidado: cala-me sempre fundo encontrar mais uma dessas pessoas admiráveis que, no interior de uma agenda preenchidíssima, encontram sempre tempo e disposição para aceitar um convite simples, de um clube escolar.

E valeu a pena ter visto o filme de Gus van Sant, Elephant, que não conhecia e me surpreendeu pelo tipo de abordagem de um assassínio em massa praticado por dois jovens.

O mais brutal dos acontecimentos, e o mais emotivo, é visto, paradoxalmente, através de um olhar despido de emoção, como se fosse um robot ou um extra-terrestre a observar as situações, curiosa mas friamente.

As cenas mais corriqueiras são demoradamente perscrutadas por esse olhar, o qual não criaafinidade com nada ou ninguém: nenhuma empatia permite que nos identifiquemos com as personagens. Ou, sequer, que cheguemos a odiar os maus. E se essa ausência de filtro nos perturba, ela vem instalar uma certa banalidade (mas, mais ainda do que essa banalidade tantas vezes referida, estabelece um vazio do afecto, de afectos).

Tudo parece gratuito - e, afinal, nada é gratuito; há sentidos que nos escapam, enigmáticos ou, como lembrava Carlos V. Marques, intuídos em alguns sinais, como pontas soltas, indícios que não se chegam a completar, meras possibilidades que o realizador não fecha nem esgota.

O debate que se seguiu, vivíssimo, foi dos mais interessantes a que o clube já assistiu: diria que Sicko e Elephant foram, este ano lectivo, desse ponto de vista, dos filmes mais provocadores e estimulantes.

Também no debate nada foi gratuito, e tudo serviu para o tornar um momento riquíssimo de conversa, partilha e discussão: que o Eça não tivesse apreciado o filme e o considerasse pretensioso, que a Luísa, amiga de há muito do Carlos, conseguisse fazer a ginástica que fez para o reencontrar, que Elisa, ex-professora do nosso convidado, tivesse saído mais cedo do Pedagógico para o outro grande reencontro da tarde, que um grupo não suportasse mais tempo o filme e abandonasse a sala a meio, que os gostos fossem diferentes, que as perspectivas fossem múltiplas - à imagem do próprio elefante que seria diferentemente percepcionado e descrito por cada um dos cegos à volta dele.

Nós fomos os cegos diante de Elephant. E a verdade é que, de ângulos diferentes, segundo diferentes gostos, compusemos um possível puzzle.

Nós fomos os cegos, e vimos muito bem.

Obrigado, Carlos, e até breve.

domingo, 18 de outubro de 2009

AMERICANOS NA EUROPA, EUROPEUS NA AMÉRICA

Na sequência do norte-americaníssimo filme de Michael Moore, gostaria de partilhar convosco uma conversa interessante que tive com o meu «primo da América».

Segundo esse primo - que está sempre de passagem e, portanto, nunca poderia visitar-nos ao clube de cinema, embora gostasse muito -, há dois filmes que insiste em rever e que, devido à sua qualidade de homem educado numa dupla realidade cultural, o comovem sempre: entende-os como filmes que representam, um deles, a visão de um americano sobre a Europa e sobre os europeus; O outro, a visão que, da América e dos americanos, tem um europeu.


O primeiro, é Barry Lindon, de Stanley Kubrick: e, porventura, nessa história sobre um aventureiro irlandês, em que são importantes as peripécias, os sentimentos e as relações mas também os pormenores geográficos, os magníficos verdes e castanhos da paisagem céltica, autêntica pintura, acabamos percebendo mais sobre os próprios americanos do que sobre os europeus, isto é, aprendemos mais, neste caso, sobre quem olha (o que interessa a esse olhar, o que o sensibilizou), do que sobre o objecto olhado.



O segundo é Paris,Texas, de Wim Wenders: e contudo, não só a nível da psicologia, mas da grandeza física que tudo envolve, as estradas longas, como se não tivessem fim, os comboios compridíssimos, que nunca cessam de passar, a extensão a perder de vista dos desertos -, acerca da América do Norte, talvez também aqui aprendamos mais sobre o modo como ela toca e afecta um europeu, do que sobre o que ela realmente é.





Fiquei curioso de tornar a ver estes filmes - que nunca amei especialmente - sob esta perspectiva que nunca me ocorrera. Por outro lado, aqui está mais um exemplo daquilo para que um ciclo pode servir: cruzar diferentes olhares, fazer interagir diversas perspectivas que, fora dessa junção, seriam sempre vistas separada e isoladamente...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Sobre três filmes que me emprestaram (dois deles "ilegalmente"), já que não me recordava deles: Batman; Batman Returns; Prince of Darkness

Na quinta-feira fui a casa do Guilherme e levei-lhe alguns filmes do Spike Lee e do Mel Brooks que ele tinha ficado com curiosidade em ver (penso que depois de ter lido os meus posts). Reparei que ele tinha lá o Príncipe das Trevas e os dois primeiros filmes da série Batman, sendo que estes últimos, por sua vez, lhe tinham sido emprestados pelo João Sacramento. Presumindo que o João não se importaria de me emprestar os filmes, lá fui eu contente para casa. Eu já tinha visto os três filmes em pequeno, mas não me recordava grande coisa. O príncipe das trevas é dos poucos filmes do Carpenter que eu não tenho em DVD. Estava com tanta vontade de ver os filmes que vi os três nesse mesmo dia, acabando por me deitar quase às quatro da manhã.
















Fiquei muito surpreendido, pela positiva, com o príncipe das trevas, já que me lembrava dum filme muito mais low budget, e com um enredo pouco interessantes. E, embora de facto o orçamento fossse apenas de três milhões de dollars, o mestre Carpenter conseguia manter o suspense e o terror durante toda a obra. Usando efeitos como milhares de formigas a entrarem em frenesi, baratas a devorarem um homem, vermes a treparem janelas, ele conseguiu fazer um filme realmente apocalíptico (mas passado todo dentro de uma igreja!)













Isso sim, é obra de génio. Entre os actores, Carpenter reuniu os seus amigos Donald Pleasence e Victor Wong. O primeiro (um veterano de Hollywood) já tinha entrado no Halloween e no Escape From New York, obras-primas de Carpenter. A história do filme era simples. Um sociedade conhecida como Irmandade do Sono guardava Satanás há dois mil anos, fechado num cilindro de vidro. Segundo a história, Cristo teria tentado avisar a humanidade desse perigo e por isso tinham-nos crucificado. Então, em plena década de oitenta, com a diminuição da fé e as teorias da física quântica a refutarem a ideia de Deus, enfim, com a Modernidade a vencer o preconceito religioso, o poder do Diabo ia aumentando cada vez mais. Até que se tornou tão poderoso que acabou por abrir rachas no cilindro e transbordar para o exterior. Desde logo que o líquido do cilindro contaminou alguns cientistas que tentavam resolver o mistério e que tinham sido chamados pelo Vaticano. Eles transformaram-se em zombies, servos do diabo, e atacaram os outros cientistas.
















No final, após várias cenas de terror e suspense bem conseguidas, o diabo possui o corpo de uma mulher e aproxima-se de um espelho que dá para outra dimensão (a ideia já antiga de que a imagem inversa de um espelho abre as portas para outro lugar - Alice do Outro Lado do Espelho; Orfeu de Jean Cocteau...).









Nessa dimensão encontra-se cerrado o pai do diabo, o próprio anti-cristo que causará o apocalipse. Quando o diabo/mulher está prestes a puxar o pai, uma das cientistas atira-se para o espelho e leva o diabo com ela, ficando os três fechados na outra dimensão. Donald Pleasence, um padre, atira um machado para o espelho e fecha-os lá definitivamente. Ou não? O final, 100% à Carpenter, deixa-nos na dúvida, já que um dos cientistas sonha com a mulher que se atirou para o espelho a regressar à terra, saindo da Igreja com um ar diabólicoooo!
O que interessa é que o filme (e três milhões é de facto muito pouco) consegue manter-se como apocalíptico do início ao fim, mantendo bons momentos de terror. Imaginando que um realizador como o Spielberg teria ficado com o projecto, o que ele faria era um filme cheio de efeitos especiais, imagens do planeta a arder, demónios a voar, etectera, mas faria uma grande trampa, sem qualquer sentido de suspense ou criatividade. Resumindo, fiquei bastante satisfeito.

Quanto aos Batman's não posso dizer o mesmo. O argumento dos dois filmes não é lá muito convincente e os actores também não. O Jack Nicholson consegue arruinar o primeiro filme e o Michael Keaton é tudo menos convincente como homem-morcego.
















A Michelle Pfeifer é simplesmente péssima! Os únicos que conseguem brilhar são o fantástico Christopher Walken, o sempre vilão Jack Palance e o Danny DeVito, que se sai com uma interpretação assombrosa e muito diferente do que estamos habituados (comédias da treta com o Schwarzenegger).













As cenas de luta são prolongadas até espremerem qualquer vigor e diversão que pudessem ter, tornando-se pesadas e aborrecidas. E os gadgets chegam a ser algo ridículos... Tanto dos filmes é ocupado em cenas de luta que acabamos por não entender as motivações das personagens. Afinal, quem é aquele Batman??? É algo que se percebe, por exemplo, no mais recente Batman Begins. E a sequela The Dark Knight, apresenta-nos um Joker psicopata convincente e bem interpretado pelo Heath Ledger (aliás, quando o Nicholson viu o filme, saíu da sala de cinema a bufar de raiva). Os filmes são muito confusos, a direcção artística do Burton é muito fraquinha (sobretudo se a compararmos com outros filmes dele), os actores são terríveis e o argumento é intraduzível. O que, apesar de tudo, consegue salvar os filmes são alguns momentos à Tim Burton: o homem que é esturricado pelo Joker, o Pinguim a ser levado para o Zoo, a Catwoman a ser lambida pelos gatos da rua... Mas são dois filmes compridos e que não satisfazem ninguém (acho eu). Para além disso, a diferença entre o Nicholson e o Ledger é flagrante. Enquanto que o primeiro tenta roubar o protagonismo do filme (até aparece em primeiro lugar no genérico - sempre foi completamente presunçoso e cabotino), com aparições vistosas e risos chanfrados, o segundo, embora faça de psicopata, acaba por ser muito mais contido, sem tentar ofuscar ninguém no filme, mantendo-se pura e simplesmente como secundário. Obviamente que o primeiro acaba por ter uma interpretação terrível e o segundo, claro!, fica com o protagonismo do filme - e mais, depois da sua morte, fica para a história como um segundo James Dean.










Fiquem-se pelos batman's modernos (apesar do Christian Bale ser também péssimo, sempre contamos com um Morgan Freeman, um Michael Caine, um Heath Ledger, um Gary Oldman, um Liam Neeson e um Aaron Eckhart, para além de um argumento sério e com sentido e cenas de luta bem-feitas e rápidas... enfim, duas grandes produções que me deixaram satisfeito).

Será que vem aí um Batman 3?

segunda-feira, 25 de maio de 2009

9º Comentário

Após o 8º comentário feito pelo meu amigo Eça ao meu texto "Agora com mais tempo..." de 23 de Maio, decidi escrever este 9º comentário:

"Olha Eça, quando eu tinha a tua idade e já gostava muito de cinema também costumava dialogar com uma pessoa mais velha (posso até divulgar que se tratava do meu cunhado) em discussões infinitas sem sentido... Na maioria dos casos eram como "braços de ferro" cujo fim não era um diálogo honesto para conseguir alguma verdade. Como eu ainda era muito jovem não conseguia compreender (faltava-me um pouco de maturidade) que do outro lado apenas havia o interesse em fazer estender a discussão sem atender aos argumentos invocados. Só pelo prazer de conseguir aborrecer a outra pessoa. Depois de muito aconselhado pelo meu Pai a pouco e pouco fui abandonando esse tipo de discusão estéril e fui deixando essa pessoa a falar sozinha... Continuo a manter a amizade que me liga a essa pessoa mas quando percebo que, no caso de haver diferenças de opinião, estou novamente a ser conduzido para discussões em que a outra já nem ouve os meus argumentos, páro. Como a intenção de discutir ideias que está subjacente a este Clube de Cinema (e este blogue) é bastante mais positiva eu continuo a pensar que se devem discutir os gostos duma forma honesta. E por isso relativamente ao assunto "2001: Odisseia no Espaço" eu vou PARAR de dialogar contigo."

No entanto estou aberto a outros diálogos, partilhas, relatos de histórias interessantes sobre cinema porque eu acredito sempre que as pessoas inteligentes como tu estão sempre a tempo de saberem tirar partido das capacidades que têm para unir as pessoas num espírito de solidariedade próprio dos ideais que defendem. Por isso Eça, eu continuo teu amigo cinéfilo.

Já agora apetece-me relembrar um excerto do filme que inaugurou o nosso "Clube de Cinema" - O Bom Rebelde de Gus Van Sant. Vou levá-lo para a próxima sessão para as partilhas cinéfilas...