Convidado a escolher e a propor um filme, Pedro Mexia decidiu-se por um Rohmer (e que a propósito!). "Um Conto de Verão".
Emprestou-me o DVD para que o visse primeiro, se quisesse, a sós, em casa.
Vi-o. Sozinho. À noite. E devo confessar que foi uma experiência confusa, entre o prazer que me suscitavam a beleza e a tensão do filme, das personagens, dos sentimentos, ou a ligeireza dos "jogos de sedução" (como Mexia se lhes refer

iu depois), e o receio de que os jovens - mesmo os do clube de cinema, com duas ou três excepções - pudessem não estar preparados para um objecto tão raro, tão exigente, tão ao arrepio dos hábitos cinematográficos de hoje.
Mais tarde, durante a exibição, confesso, o mesmo receio pateta me acompanhou durante todo o tempo. Pois não fora a Catarina a dizer-me: «Um filme francês? Detesto filmes franceses!»? Pois não fora o Afonso a dizer-me: «Francês? Ah, então não vou!»? (E não veio, o puto!). Que iam sentir, que iam pensar, que iam compreender daquilo, que iam desprezar daquilo?
Como imaginam, quando a luz foi ligada e, após as brilhantes considerações de Pedro Mexia, se iniciou a conversa, foi com a mais agradável das surpresas que dei conta das reacções dos jovens. Por causa do gosto, que mostraram, por um tempo e um ritmo cinematográficos tão singulares

, por causa do seu fascínio pela perturbação daquele jovem em face do amor e da amizade, em face da rejeição e da superabundância, por causa da sua sensibilidade à beleza daqueles diálogos tão prolixos, tão densos, tão "irrealistas", no sentido - como Mexia insistiu - em «que, de facto, os jovens não falam assim».
E o próprio Mexia foi um sedutor: pela sua voz, tudo surgiu como redes de ligações possíveis e imprevisíveis, onde cabiam o teatro, a literatura, a filosofia, o cinema, a História, Portugal, França, o mundo, sem esforço nem artifício, fluindo graciosamente. Pela sua voz passou o seu imenso amor pelo cinema e, sobretudo, por Eric Rohmer.
Indo a seguir para casa, por estradas carregadas de trânsito e água, num carro muito amolgado e com as luzes de farol perigosamente

fundidas, não conseguia sair daquele momento - meia hora antes, no anfiteatro, com Rohmer, Mexia, e muita gente, entra a qual jovens cultos, inteligentes, interessados, interessantes.