domingo, 12 de julho de 2009

LOUIS DE FUNÈS (COM UM PEDIDO DE PERDÃO AOS CINÉFILOS EXIGENTES!)

Em matéria de cinema, ao contrário de dois cinéfilos que me ocorrem de imediato, o Francisco e o Eça, eu tive uma adolescência e até, talvez, uma juventude pouco exigentes: via, com a mesma euforia de estar a cumprir um ritual, filmes como o excelente O Acossado (Godard), e o péssimo Trinitá, como já confessei. E se a pior das consequências foi que já só tardiamente principiei a forjar critérios e a definir um gosto, a vantagem reside no desalinhamento e na enorme variedade do que cabe, ainda hoje, nesse gosto. Não insinuo, obviamente, que outros, que tiveram, desde muito novos, guias com uma visão profunda e exigente do cinema, não possuam também um gosto amplo e variado; observo, simplesmente, a ironia da situação: como, para mim, entre amigos, tudo o que fosse cinema tinha qualquer coisa de festivo e fascinante, e como, à partida, nada punha de parte, aprendi a encontrar motivos de interesse até nos piores filmes. Isso não faz de mim, como é natural, um crítico rigoroso nem fiável; mas faz um cinéfilo condescendente, sensível a qualquer coisa boa que se salve no meio do estrume cinematográfico.Estou antecipadamente justificado? Então, deixem-me falar-vos hoje de um actor menoríssimo, rapidamente apanhado pela voragem do cinema comercial francês, muito feito de filmes tolos, às vezes grosseiros, baseados num humor mais do que discutível. Louis de Funès.





Eu sei que o que se recorda hoje de Funès é a horripilante série de filmes em torno de um «chef de police» mais o seu grupo de gendarmes imbecis; eu sei que a maioria dos gags são, na melhor das hipóteses, simplesmente sofríveis; e sei que muito do humor funèsiano girava em torno da sua mudança rápida de expressão facial: ele era, nos anos sessenta, o equivalente àquilo em que se tornaria Jim Carrey (que, por sua vez, não é mais do que um imitador pobre do grande Jerry Lewis).

Mas a questão é precisamente essa: De Funès divertiu-me, na sua habitual composição de um homem de meia idade, careca, baixinho, extremamente nervoso e, se não mau, pelo menos de um egocentrismo extremo, que o levava aos mais reprováveis (mas sempre engenhosos) planos para ultrapassar os outros. A sua incontida impaciência nas mais absurdas situações, a sua irascibilidade, as suas crises de fúria, a sua perfídia pequenina, banal, não de vilão mas de Zé Ninguém (e, quase sempre, para atingir objectivos de uma arrepiante vulgaridade) fazem-me, contudo, ainda hoje, sorrir. Para quem, como o André, só quer ver o melhor, os filmes de Louis De Funès são francamente desaconselháveis. Para quem, como a Beast, está tão sedenta de cinema que quer ver de tudo, tocar em todo o lado, então este senhor pode proporcionar-lhe alguma diversão ligeira em época estival.

3 comentários:

  1. Acertou em cheio, porque já vi pelo menos um filme deste senhor, por sugestão do meu pai, que talvez tenha uma razão parecida, a de ver filmes com ele quando era novo. E concordo, de certo modo, com o facto de este ser parecido com o Jim Carrey, que não consigo suportar ainda, na sua forma de expressão exagerada. De qualquer modo acho que Funès consegue ter piada, enquanto que o mais novo não lhe consigo achar tanta.

    ResponderEliminar
  2. Também me lembro dessa série de filmes do "Gendarme". Para mim é um pouco como os filmes do Trinitá na medida em que hoje já não me interesso tanto por eles como à alguns anos atrás. Mas ainda assim quando passam na televisão, seja por nostalgia de recordar ou apenas para rever cenas que ainda me fazem rir, acabo por ver (nem que seja apenas alguns minutos de filme).

    ResponderEliminar